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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Palestra: Oficina “Gramática de Texto”

Oficina “Gramática de Texto” 

Professora: Danielle Guglieri Lima

Curso gratuito em 6 aulas, com duração total de 18 horas (fornecemos certificado)
Horário: das 15h30 às 18h30
Dias: 11, 18 e 25 de outubro e 8, 22 e 29 de novembro (às terças-feiras)
Inscrições abertas (25 vagas) pelo telefone 4992-7218
Local: Casa da Palavra – Praça do Carmo, 171, Centro – Santo André, SP
Esta oficina consiste em uma possibilidade real para retomar questões relativas ao ensino, aprendizagem e uso da Língua Portuguesa, imprescindíveis em nosso dia a dia profissional, bem como consiste, pois, em rever pontos importantes acerca do uso, considerado padrão, postulado pela gramática normativa, as novas regras de acentuação, normas e usos linguísticos e problemas gerais de norma culta.
Público-alvo: Estudantes, professores, jornalistas e interessados em geral.
Danielle Guglieri Lima  é Mestre em Língua Portuguesa (PUC/SP), possui MBA em Marketing (FGV), e é graduada em Letras: Licenciatura Plena (FAPA/RS). Possui experiência de 15 anos na área. Atua como professora, corretora de redações em concursos, revisora, palestrante e escritora, tutora e autora de cursos em EAD.



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Cassiano Ricardo Tirapani
Coordenador - Casa da Palavra - 4992-7218
Praça do Carmo, 171, Santo André

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A Casa da Palavra é um espaço público dedicado a uma programação de cunho cultural, localizada na Praça do Carmo, 171- Centro – Santo André - SP.

O seu trabalho é voltado aos apreciadores e produtores da literatura, pesquisadores, pensadores, estudantes, artistas, e aos mais diversos amantes da palavra.

Ela abriga em seu espaço a Escola Livre de Literatura (ELL), que se destina à difusão da Literatura, e à formação de novos leitores.

Venha conhecer a Casa da Palavra, estamos abertos a novas idéias!

Este espaço é um equipamento da Secretaria de Cultura Esportes e Lazer da Prefeitura Municipal de Santo André

Contato:

Telefone: 4992-7218

Visite também o nosso blog: http://casadapalavrasa.blogspot.com/

Para a apresentação de projetos ou cursos, contatar:
Cassiano Ricardo Tirapani - Coordenador da Casa da Palavra
crtirapani@gmail.com




E-mail enviado por:

De:camila de santa rosa (milais_88@hotmail.com)
Enviada:quinta-feira, 6 de outubro de 2011 17:10:52
Para: letras uniesp (s1letras@hotmail.com)





Postado por Rodrigo P.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Estágios‏

E-mail gentilmente enviado por:
De: camila de santa rosa (milais_88@hotmail.com)
Enviada: terça-feira, 30 de agosto de 2011 17:43:08
Para: letras uniesp (s1letras@hotmail.com)





"Olá caro colega, como prometido mando para você e todos da sala sets de estágios para quem quer entrar na carreira docente ou  outras áreas compatíveis com o curso.

www.ciee.com.br
www.nube.com.br
www.fundap.sp.gov.br
www.futuraestagios.com.br



Para  aqueles quem não têm medo e não são egoísta de passar o seu saber para outras pessoas que não têm oportunidade de pagar um curso pré vestibular  e muito menos dinheiro para arcar com as despesas de um curso superior, para que quere ajudar pode  escrever se no Educafro,para mais informações entrem no site:

 www.educafro.org.br/

Professores desta ONG são voluntários, não recebem nenhuma ajuda de custo para trabalhar nos núcleos, mas vale apena lutar por esta causa, além de estarmos adquirindo experiência para exercermos nossa profissão em sala de aula e ajudando o próximo a realizar o sonho. Existe coisa mais gratificante?"








quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Info: Inscrições para atribuição de aulas

Secretaria abre inscrições para atribuição de aulas de 2012


Professores candidatos à contratação temporária que não atuaram na rede em 2011 podem se inscrever para a Prova de Avaliação até o dia 9 de setembro em uma das 91 Diretorias de Ensino em todo o Estado

Os demais docentes deverão fazer o cadastro diretamente no site da Secretaria da Educação, entre os dias 18 de agosto e 30 de setembro

A Secretaria de Estado da Educação abre inscrições para o processo de atribuição de classes/aulas voltado ao ano letivo de 2012, conforme portaria publicada no “Diário Oficial” do Estado desta terça-feira (16/08). Professores candidatos à contratação temporária que não atuaram na rede estadual em 2011 podem se inscrever para a Prova de Avaliação até o dia 9 de setembro em uma das 91 Diretorias de Ensino em todo o Estado. Já os docentes efetivos, estáveis e temporários atuantes em 2011 deverão fazer o cadastro diretamente no site www.educacao.sp.gov.br , entre os dias 18 de agosto e 30 de setembro.

 Só serão classificados para participar do processo de atribuição os professores não efetivos e candidatos à contratação que obtiverem média igual ou superior a 50% na Prova de Avaliação realizada pela Secretaria. A nota obtida no exame, somada às demais pontuações referentes a tempo de serviço e títulos, definirá a classificação do postulante no processo.

Também deverão fazer a prova os docentes estáveis em atividade na rede que não alcançaram a média mínima nas edições passadas. Para aqueles que já foram aprovados a participação é facultativa. Nesse caso, a maior nota dentre as avaliações será considerada para a atribuição.

A nota será única por campo de atuação. No momento da inscrição, o candidato deverá optar pela “Prova Classe”, referente ao Ciclo I do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano), ou “Prova Aula”, referente às disciplinas correspondentes ao Ciclo II do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano), ao Ensino Médio e à Educação Especial. O docente que desejar atuar no campo de aulas e classes deverá fazer as duas avaliações.

         No ato da inscrição, o candidato deve apresentar documentos pessoais e comprovante de habilitação ou qualificação docente (diploma, histórico escolar, declaração de matrícula e frequência da instituição de ensino).



Link: www.educacao.sp.gov.br
Matéria completa: AQUI



Material gentilmente enviado por:

De:camila de santa rosa (milais_88@hotmail.com)
Enviada:quarta-feira, 24 de agosto de 2011 23:56:12
Para:letras uniesp (s1letras@hotmail.com)

"Por favor coloque isto no blog interessa toda a sala:
http://www.educacao.sp.gov.br/?s=professo+temporario
Secretaria  de ensino abre inscriçoes para atribuição de aulas!
"



Contos para análise: Esses dois contos serão analisados em sala de aula

Conto 1: O gato preto – Edgar Allan Poe


Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e instruíram.

No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror _ mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum _ uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Desde a infância, tomaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.
Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.
Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.
Pluto _ assim se chamava o gato _ era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.
Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento _ enrubesço ao confessá-lo _ sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim _ que outro mal pode se comparar ao álcool? _ e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.
Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão _ dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.
Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado _ um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.
Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de “fogo!”. As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito – entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum do
s elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo _ coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras “estranho!”, “singular!”, bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.
Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.
Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme _ tão grande quanto Pluto _ e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo _ e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.
Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.
Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse _ detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.
De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que – não sei como nem por quê _ seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos – muito gradativamente _ , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.
Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.
No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo _ apresso-me a confessá-lo _ , pelo pavor extremo que o animal me despertava. Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar _ sim, mesmo nesta cela de criminoso _ , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível _ que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa _, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!
Na verdade, naquele momento eu era um miserável _ um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído… uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso _ encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim _ pousado eternamente sobre o meu coração!
Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros _ os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade _ e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irre
primíveis acessos de cólera, minha mulher – pobre dela! – não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.
Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.
Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.
Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita. E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: “Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão”.
O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite _ e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.
Transcorreram o segundo e o terceiro dia _ e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.
No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.
_ Senhores _ disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada _ , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída… (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes _ os senhores já se vão? _ , estas paredes são de grande solidez.
Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.
Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.
Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.
Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!



Conto 2:Venha ver o pôr do sol (Lygia Fagundes Telles)


ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.
- Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
- Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima
Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.
- Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?
- Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? - perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. - Hem?!
- Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço rindo.
- Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?
- Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. - Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.
Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
- Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
- Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
- E você acha que eu iria?
- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada...- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.
- Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
- Mas eu pago.
- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
- Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
- É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo...
O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
- É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.
- Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.
- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
- Ele é tão rico assim?
- Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
- Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.
- É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?
- Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: - A minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. - Chega Ricardo, quero ir embora.
- Mais alguns passos...
- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
- A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: - Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
- Sua prima também?
- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
- Vocês se amaram?
- Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o
- Eu gostei de você, Ricardo.
- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
- Esfriou, não? Vamos embora.
- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
- Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.
- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?
- Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
- E lá embaixo?
- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
- Todas estas gavetas estão cheias?
- Cheias?...- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
- Vamos, Ricardo, vamos.
- Você está com medo?
- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:
- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?...- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
- Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando...
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
- Pegue, dá para ver muito bem...- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.
- Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça...- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida...- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
- Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
- Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
- Boa noite, Raquel.
- Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.
- Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.
- Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
- Não...
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
- NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.





Enviado por e-mail:
De:Jorge Barboza (jorgekissany@hotmail.com)
Enviada:quarta-feira, 24 de agosto de 2011 18:04:08
Para: Letras Uniesp Iesa Manhã (s1letras@hotmail.com)


"Boa Tarde Povo,
Segue em anexo arquivo de texto para aula professora Joice,
Um abraço,
Jorge Barboza"




* Obs: Anexo enviado por e-mail a todos os alunos, caso não tenha recebido solicitar atraves dos comentarios ou pessoalmente na sala de aula
* Nota: Edgar Allan Poe é um grande escritor muito prezado por mim, quem se interessar sobre suas obras no meu blog há alguns poemas e recortes sobre ele:
O Corvo por Machado de Assis
O Corvo: Filosofia da Composição 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Castro Alves: Navio Negreiro

O navio negreiro é um poema de Castro Alves e um dos mais conhecidos da literatura brasileira. O poema descreve com imagens e expressões terríveis a situação dos africanos arrancados de suas terras, separados de suas famílias e tratados como animais nos navios negreiros que os traziam para ser propriedade de senhores e trabalhar sob as ordens dos feitores.
Foi escrito em São Paulo, no ano de 1869, quando o poeta tinha vinte e dois anos de idade, e quase vinte anos depois da promulgação da Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico de escravos, em 4 de setembro de 1850. O navio negreiro é composto de seis partes, e alterna métricas variadas para obter o efeito rítmico mais adequado a cada situação retratada no poema.



 Navio Negreiro (Castro Alves)


  I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai?  Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz!  Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas.


II

   
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...


III

   
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!


IV

    
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
          Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
          E ri-se Satanás!...


V

   
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?   Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...


VI

      
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!




Enviado por e-mail:
Para s1letras@hotmail.com, Letras Uniesp
De: Jorge Barboza (jorgekissany@hotmail.com)
Enviada: segunda-feira, 8 de agosto de 2011 18:22:13
Para: s1letras@hotmail.com; Letras Uniesp (letras.uniesp2011@gmail.com)


Postado por Rodrigo P.


Gonçalves Dias: I -Juca-Pirama

 Juca-Pirama
O poema épico de estilo indianista I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, é dividido em dez cantos, em versos alexandrinos e decassílabos.
Ele relata a história de um guerreiro tupi, aprisionado por uma tribo antropófaga dos Timbiras e que, sacrificando a sua honra ao pedir clemência na hora da morte, prefere passar por covarde de modo a cuidar do seu pai, velho, doente e cego. O pai, ao rever o filho e ao cheirar a tinta com que este está ungido para efeitos de sacrifício, e perceber a calva de prisioneiro, fica envergonhado da covardia do filho e envia-o de volta para a tribo Timbira.
O guerreiro leva seu pai consigo para presenciar a consumação do ritual. Contudo, muito triste e consumido pela vergonha do filho fica o velho ao ouvir do chefe Timbira que eles não o desejavam mais porque havia provado ser covarde e não digno de ser sacrificado.
O pai pragueja uma sequencia de desgraças para o filho, que manchara a honra e o nome na raça Tupi. O filho, não podendo suportar o ódio do pai, se enche de valentia e num súbito ato, declara ataque a toda a tribo Timbira. O cego reconhece o brado do filho, e ouvindo os barulhos da que se formou entendeu que o filho lutava com bravura.
A confusão acabou quando o chefe Timbira gritou:
"— Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, E para o sacrifício é mister forças. — "
Ouvindo isso, o velho Tupi caiu em choro copioso. Choro de alegria.
O caso virou história contada nas noites por um velho Timbira.


I-Juca-Pirama (Gonçalves Dias)


No meio das tabas de amenos verdores,
    Cercadas de troncos - cobertos de flores,
    Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
    São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
    Temíveis na guerra, que em densas coortes
    Assombram das matas a imensa extensão.

    São rudos, severos, sedentos de glória,
    Já prélios incitam, já cantam vitória,
    Já meigos atendem à voz do cantor:
    São todos Timbiras, guerreiros valentes!
    Seu nome lá voa na boca das gentes,
    Condão de prodígios, de glória e terror!

    As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
    As armas quebrando, lançando-as ao rio,
    O incenso aspiraram dos seus maracás:
    Medrosos das guerras que os fortes acendem,
    Custosos tributos ignavos lá rendem,
    Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

    No centro da taba se estende um terreiro,
    Onde ora se aduna o concílio guerreiro
    Da tribo senhora, das tribos servis:
    Os velhos sentados praticam d’outrora,
    E os moços inquietos, que a festa enamora,
    Derramam-se em torno dum índio infeliz.

    Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto,
    Sua tribo não diz: - de um povo remoto
    Descende por certo - dum povo gentil;
    Assim lá na Grécia ao escravo insulano
    Tornavam distinto do vil muçulmano
    As linhas corretas do nobre perfil.

    Por casos de guerra caiu prisioneiro
    Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro
    Assola-se o teto, que o teve em prisão;
    Convidam-se as tribos dos seus arredores,
    Cuidosos se incubem do vaso das cores,
    Dos vários aprestos da honrosa função.

    Acerva-se a lenha da vasta fogueira
    Entesa-se a corda da embira ligeira,
    Adorna-se a maça com penas gentis:
    A custo, entre as vagas do povo da aldeia
    Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
    Garboso nas plumas de vário matiz.

    Em tanto as mulheres com leda trigança,
    Afeitas ao rito da bárbara usança,
    índio já querem cativo acabar:
    A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
    Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
    Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,

II

    Em fundos vasos d’alvacenta argila
    Ferve o cauim;
    Enchem-se as copas, o prazer começa,
    Reina o festim.

    O prisioneiro, cuja morte anseiam,
    Sentado está,
    O prisioneiro, que outro sol no ocaso
    Jamais verá!

    A dura corda, que lhe enlaça o colo,
    Mostra-lhe o fim
    Da vida escura, que será mais breve
    Do que o festim!

    Contudo os olhos d’ignóbil pranto
    Secos estão;
    Mudos os lábios não descerram queixas
    Do coração.

    Mas um martírio , que encobrir não pode,
    Em rugas faz
    A mentirosa placidez do rosto
    Na fronte audaz!

    Que tens, guerreiro? Que temor te assalta
    No passo horrendo?
    Honra das tabas que nascer te viram,
    Folga morrendo.

    Folga morrendo; porque além dos Andes
    Revive o forte,
    Que soube ufano contrastar os medos
    Da fria morte.

    Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,
    Lá murcha e pende:
    Somente ao tronco, que devassa os ares,
    O raio ofende!

    Que foi? Tupã mandou que ele caísse,
    Como viveu;
    E o caçador que o avistou prostrado
    Esmoreceu!

    Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes
    Revive o forte,
    Que soube ufano contrastar os medos
    Da fria morte.

III

    Em larga roda de novéis guerreiros
    Ledo caminha o festival Timbira,
    A quem do sacrifício cabe as honras,
    Na fronte o canitar sacode em ondas,
    O enduape na cinta se embalança,
    Na destra mão sopesa a iverapeme,
    Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo
    Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra,
    Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,
    Como que por feitiço não sabido
    Encantadas ali as almas grandes
    Dos vencidos Tapuias, inda chorem
    Serem glória e brasão d’imigos feros.

    "Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro;
    "Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
    "As nossas matas devassaste ousado,
    "Morrerás morte vil da mão de um forte."

    Vem a terreiro o mísero contrário;
    Do colo à cinta a muçurana desce:
    "Dize-nos quem és, teus feitos canta,
    "Ou se mais te apraz, defende-te." Começa
    O índio, que ao redor derrama os olhos,
    Com triste voz que os ânimos comove.

IV

    Meu canto de morte,
    Guerreiros, ouvi:
    Sou filho das selvas,
    Nas selvas cresci;
    Guerreiros, descendo
    Da tribo tupi.

    Da tribo pujante,
    Que agora anda errante
    Por fado inconstante,
    Guerreiros, nasci;
    Sou bravo, sou forte,
    Sou filho do Norte;
    Meu canto de morte,
    Guerreiros, ouvi.

    Já vi cruas brigas,
    De tribos imigas,
    E as duras fadigas
    Da guerra provei;
    Nas ondas mendaces
    Senti pelas faces
    Os silvos fugaces
    Dos ventos que amei.

    Andei longes terras
    Lidei cruas guerras,
    Vaguei pelas serras
    Dos vis Aimoréis;
    Vi lutas de bravos,
    Vi fortes - escravos!
    De estranhos ignavos
    Calcados aos pés.

    E os campos talados,
    E os arcos quebrados,
    E os piagas coitados
    Já sem maracás;
    E os meigos cantores,
    Servindo a senhores,
    Que vinham traidores,
    Com mostras de paz.

    Aos golpes do imigo,
    Meu último amigo,
    Sem lar, sem abrigo
    Caiu junto a mi!
    Com plácido rosto,
    Sereno e composto,
    O acerbo desgosto
    Comigo sofri.

    Meu pai a meu lado
    Já cego e quebrado,
    De penas ralado,
    Firmava-se em mi:
    Nós ambos, mesquinhos,
    Por ínvios caminhos,
    Cobertos d’espinhos
    Chegamos aqui!

    O velho no entanto
    Sofrendo já tanto
    De fome e quebranto,
    Só qu’ria morrer!
    Não mais me contenho,
    Nas matas me embrenho,
    Das frechas que tenho
    Me quero valer.

    Então, forasteiro,
    Caí prisioneiro
    De um troço guerreiro
    Com que me encontrei:
    O cru dessossêgo
    Do pai fraco e cego,
    Enquanto não chego
    Qual seja, - dizei!

    Eu era o seu guia
    Na noite sombria,
    A só alegria
    Que Deus lhe deixou:
    Em mim se apoiava,
    Em mim se firmava,
    Em mim descansava,
    Que filho lhe sou.

    Ao velho coitado
    De penas ralado,
    Já cego e quebrado,
    Que resta? - Morrer.
    Enquanto descreve
    O giro tão breve
    Da vida que teve,
    Deixai-me viver!

    Não vil, não ignavo,
    Mas forte, mas bravo,
    Serei vosso escravo:
    Aqui virei ter.
    Guerreiros, não coro
    Do pranto que choro:
    Se a vida deploro,
    Também sei morrer.

V

    Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba;
    Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
    Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
    Brada segunda vez com voz mais alta,
    Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
    A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

    Timbira, diz o índio enternecido,
    Solto apenas dos nós que o seguravam:
    És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
    Tu que assim do meu mal te comoveste,
    Nem sofres que, transposta a natureza,
    Com olhos onde a luz já não cintila,
    Chore a morte do filho o pai cansado,
    Que somente por seu na voz conhece.
    - És livre; parte.
    - E voltarei.
    - Debalde.
    - Sim, voltarei, morto meu pai.
    - Não voltes!
    É bem feliz, se existe, em que não veja,
    Que filho tem, qual chora: és livre; parte!
    - Acaso tu supões que me acobardo,
    Que receio morrer!
    - És livre; parte!
    - Ora não partirei; quero provar-te
    Que um filho dos Tupis vive com honra,
    E com honra maior, se acaso o vencem,
    Da morte o passo glorioso afronta.

    - Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
    E tu choraste!... parte; não queremos
    Com carne vil enfraquecer os fortes.

    Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas
    O rebater do coração se ouvia
    Precípite. - Do rosto afogueado
    Gélidas bagas de suor corriam:
    Talvez que o assaltava um pensamento...
    Já não... que na enlutada fantasia,
    Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,
    Do velho pai a moribunda imagem
    Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato!
    Curvado o colo, taciturno e frio.
    Espectro d’homem, penetrou no bosque!

VI

    - Filho meu, onde estás?
    - Ao vosso lado;
    Aqui vos trago provisões; tomai-as,
    As vossas forças restaurai perdidas,
    E a caminho, e já!
    - Tardaste muito!
    Não era nado o sol, quando partiste,
    E frouxo o seu calor já sinto agora!
    - Sim demorei-me a divagar sem rumo,
    Perdi-me nestas matas intrincadas,
    Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
    Convém partir, e já!
    - Que novos males
    Nos resta de sofrer? - que novas dores,
    Que outro fado pior Tupã nos guarda?
    - As setas da aflição já se esgotaram,
    Nem para novo golpe espaço intacto
    Em nossos corpos resta.
    - Mas tu tremes!
    - Talvez do afã da caça....
    - Oh filho caro!
    Um quê misterioso aqui me fala,
    Aqui no coração; piedosa fraude
    Será por certo, que não mentes nunca!
    Não conheces temor, e agora temes?
    Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,
    E contra o seu querer não valem brios.
    Partamos!... -
    E com mão trêmula, incerta
    Procura o filho, tacteando as trevas
    Da sua noite lúgubre e medonha.
    Sentindo o acre odor das frescas tintas,
    Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente...
    Do filho os membros gélidos apalpa,
    E a dolorosa maciez das plumas
    Conhece estremecendo: - foge, volta,
    Encontra sob as mãos o duro crânio,
    Despido então do natural ornato!...
    Recua aflito e pávido, cobrindo
    Às mãos ambas os olhos fulminados,
    Como que teme ainda o triste velho
    De ver, não mais cruel, porém mais clara,
    Daquele exício grande a imagem viva
    Ante os olhos do corpo afigurada.
    Não era que a verdade conhecesse
    Inteira e tão cruel qual tinha sido;
    Mas que funesto azar correra o filho,
    Ele o via; ele o tinha ali presente;
    E era de repetir-se a cada instante.
    A dor passada, a previsão futura
    E o presente tão negro, ali os tinha;
    Ali no coração se concentrava,
    Era num ponto só, mas era a morte!

    - Tu prisioneiro, tu?
    - Vós o dissestes.
    - Dos índios?
    - Sim.
    - De que nação?
    - Timbiras.
    - E a muçurana funeral rompeste,
    Dos falsos manitôs quebrastes maça...
    - Nada fiz... aqui estou.
    - Nada! -
    Emudecem;
    Curto instante depois prossegue o velho:
    - Tu és valente, bem o sei; confessa,
    Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!
    - Nada fiz; mas souberam da existência
    De um pobre velho, que em mim só vivia....
    - E depois?...
    - Eis-me aqui.
    - Fica essa taba?

    - Na direção do sol, quando transmonta.
    - Longe?
    - Não muito.
    - Tens razão: partamos.
    - E quereis ir?...
    - Na direção do acaso.

VII

    "Por amor de um triste velho,
    Que ao termo fatal já chega,
    Vós, guerreiros, concedestes
    A vida a um prisioneiro.
    Ação tão nobre vos honra,
    Nem tão alta cortesia
    Vi eu jamais praticada
    Entre os Tupis, - e mas foram
    Senhores em gentileza.

    "Eu porém nunca vencido,
    Nem nos combates por armas,
    Nem por nobreza nos atos;
    Aqui venho, e o filho trago.
    Vós o dizeis prisioneiro,
    Seja assim como dizeis;
    Mandai vir a lenha, o fogo,
    A maça do sacrifício
    E a muçurana ligeira:
    Em tudo o rito se cumpra!
    E quando eu for só na terra,
    Certo acharei entre os vossos,
    Que tão gentis se revelam,
    Alguém que meus passos guie;
    Alguém, que vendo o meu peito
    Coberto de cicatrizes,
    Tomando a vez de meu filho,
    De haver-me por se ufane!"
    Mas o chefe dos Timbiras,
    Os sobrolhos encrespando,
    Ao velho Tupi guerreiro
    Responde com tôrvo acento:

    - Nada farei do que dizes:
    É teu filho imbele e fraco!
    Aviltaria o triunfo
    Da mais guerreira das tribos
    Derramar seu ignóbil sangue:
    Ele chorou de cobarde;
    Nós outros, fortes Timbiras,
    Só de heróis fazemos pasto. -

    Do velho Tupi guerreiro
    A surda voz na garganta
    Faz ouvir uns sons confusos,
    Como os rugidos de um tigre,
    Que pouco a pouco se assanha!

VIII

    "Tu choraste em presença da morte?
    Na presença de estranhos choraste?
    Não descende o cobarde do forte;
    Pois choraste, meu filho não és!
    Possas tu, descendente maldito
    De uma tribo de nobres guerreiros,
    Implorando cruéis forasteiros,
    Seres presa de via Aimorés.

    "Possas tu, isolado na terra,
    Sem arrimo e sem pátria vagando,
    Rejeitado da morte na guerra,
    Rejeitado dos homens na paz,
    Ser das gentes o espectro execrado;
    Não encontres amor nas mulheres,
    Teus amigos, se amigos tiveres,
    Tenham alma inconstante e falaz!

    "Não encontres doçura no dia,
    Nem as cores da aurora te ameiguem,
    E entre as larvas da noite sombria
    Nunca possas descanso gozar:
    Não encontres um tronco, uma pedra,
    Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
    Padecendo os maiores tormentos,
    Onde possas a fronte pousar.

    "Que a teus passos a relva se torre;
    Murchem prados, a flor desfaleça,
    E o regato que límpido corre,
    Mais te acenda o vesano furor;
    Suas águas depressa se tornem,
    Ao contacto dos lábios sedentos,
    Lago impuro de vermes nojentos,
    Donde fujas com asco e terror!

    "Sempre o céu, como um teto incendido,
    Creste e punja teus membros malditos
    E oceano de pó denegrido
    Seja a terra ao ignavo tupi!
    Miserável, faminto, sedento,
    Manitôs lhe não falem nos sonhos,
    E do horror os espectros medonhos
    Traga sempre o cobarde após si.

    "Um amigo não tenhas piedoso
    Que o teu corpo na terra embalsame,
    Pondo em vaso d’argila cuidoso
    Arco e frecha e tacape a teus pés!
    Sê maldito, e sozinho na terra;
    Pois que a tanta vileza chegaste,
    Que em presença da morte choraste,
    Tu, cobarde, meu filho não és."

IX

    Isto dizendo, o miserando velho
    A quem Tupã tamanha dor, tal fado
    Já nos confins da vida reservada,
    Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias
    Da sua noite escura as densas trevas
    Palpando. - Alarma! alarma! - O velho pára!
    O grito que escutou é voz do filho,
    Voz de guerra que ouviu já tantas vezes
    Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma!
    - Esse momento só vale a pagar-lhe
    Os tão compridos trances, as angústias,
    Que o frio coração lhe atormentaram

    De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra.
    Ele que em tanta dor se contivera,
    Tomado pelo súbito contraste,
    Desfaz-se agora em pranto copioso,
    Que o exaurido coração remoça.

    A taba se alborota, os golpes descem,
    Gritos, imprecações profundas soam,
    Emaranhada a multidão braveja,
    Revolve-se, enovela-se confusa,
    E mais revolta em mor furor se acende.
    E os sons dos golpes que incessantes fervem,
    Vozes, gemidos, estertor de morte
    Vão longe pelas ermas serranias
    Da humana tempestade propagando
    Quantas vagas de povo enfurecido
    Contra um rochedo vivo se quebravam.

    Era ele, o Tupi; nem fora justo
    Que a fama dos Tupis - o nome, a glória,
    Aturado labor de tantos anos,
    Derradeiro brasão da raça extinta,
    De um jacto e por um só se aniquilasse.

    - Basta! Clama o chefe dos Timbiras,
    - Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste,
    E para o sacrifício é mister forças. -

    O guerreiro parou, caiu nos braços
    Do velho pai, que o cinge contra o peito,
    Com lágrimas de júbilo bradando:
    "Este, sim, que é meu filho muito amado!

    "E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
    "Corram livres as lágrimas que choro,
    "Estas lágrimas, sim, que não desonram."

X

    Um velho Timbira, coberto de glória,
    Guardou a memória
    Do moço guerreiro, do velho Tupi!
    E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
    Do que ele contava,
    Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!

    "Eu vi o brioso no largo terreiro
    Cantar prisioneiro
    Seu canto de morte, que nunca esqueci:
    Valente, como era, chorou sem ter pejo;
    Parece que o vejo,
    Que o tenho nest’hora diante de mi.

    "Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo!
    Pois não, era um bravo;
    Valente e brioso, como ele, não vi!
    E à fé que vos digo: parece-me encanto
    Que quem chorou tanto,
    Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"

    Assim o Timbira, coberto de glória,
    Guardava a memória
    Do moço guerreiro, do velho Tupi.
    E à noite nas tabas, se alguém duvidava
    Do que ele contava,
    Tornava prudente: "Meninos, eu vi!".

FIM





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De: Jorge Barboza (jorgekissany@hotmail.com)
Enviada: segunda-feira, 8 de agosto de 2011 18:22:13
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